O
VALOR DO PERDÃO NO CASAMENTO
Por: Edeilson Santos
Este
é um tema recorrente. Apesar disso, torna-se extremamente necessário, pois
ainda há por parte das pessoas, uma grande resistência ao ato de pedir ou
conceder perdão aos que lhes ofenderam. Isso talvez aconteça pela concepção
errada que muitos têm dessa virtude. No entanto, o seu valor perpassa as meras
concepções e definições, e caminha para a ampliação de uma relação saudável não
só com os outros, mas consigo mesmo e com Deus. Sendo assim, o perdão envolve,
pelo menos, três âmbitos de nossa vida: social, pessoal e espiritual.
No
âmbito social, conviver com os outros nunca foi tão difícil como tem sido nos
últimos anos. As pessoas estão mais emocionais e explosivas ao mesmo tempo; magoam-se
com coisas muito simples e corriqueiras. Isso, sem falar dos casos de pessoas
que lhes resistem sem nenhum argumento plausível, sustentam sentimentos de
repúdio baseados apenas na primeira impressão que tiveram de você, logo, tudo
que diz passa ser uma afronta contra elas.
Eu
me lembro de um caso que aconteceu quando eu ainda era do grupo de jovens da
Igreja. Nesta época era envolvido com música e ousava tocar com os colegas do
templo central da denominação em que congrego. Um dia, sem procurar,
contaram-me que havia um jovem que não gostava de mim simplesmente por não
gostar. Na época, indaguei o porquê daquele moço não me suportar sendo que não
me conhecia de fato. Só me restou orar a Deus pedindo a sua intervenção, uma
vez que não iria lhe procurar para conversar para não causar maiores danos.
Pois bem, um dia ele mesmo me procurou e me pediu perdão pelo fato de agir
assim sem ao menos me conhecer.
Desta
maneira, existem pessoas que simplesmente decidiram não ir com a sua cara
apenas pelo seu jeito de ser ou de falar. Fato que contraria a palavra de Deus,
esta, por sua vez, nos ensina a seguir a paz com todos (Hb 12.14) e não
procurar ocasiões para promover a ausência de harmonia.
No
âmbito pessoal, o perdão é a base para a felicidade. Não consigo conceber o
fato de alguém que vive com um rancor em relação ao seu irmão desfrutar de
perfeita felicidade. A felicidade e a paz ocorrem quando minha alma está limpa
de toda e qualquer impureza. A mágoa, assim como o pecado, mancha a nossa alma
causando muitos males. Logo, o ato de pedir ou liberar perdão é um bem que fazemos
a nós mesmos.
No
âmbito espiritual, a Bíblia diz que “se
perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará
a vós” (Mt 6.14). As palavras de Jesus no sermão do monte são claras e
refletem como deve ser o nosso relacionamento com Deus: livre de todo pecado e
mágoa. Algumas pessoas não tomam essa palavra como uma verdade, pois jugam que
o fato de estarem na Igreja, realizarem todas as outras prerrogativas para ser
um cristão, já são suficientes para garantia salvação. Ignoram o fato de que
estarem magoados com alguém que pode ser o seu próprio cônjuge ou alguém muito
próximo pode lhes tirar a salvação.
No
entanto, a Bíblia não mente e as palavras de Jesus são categóricas, se não
perdoar ao meu irmão que me ofendeu, o meu Deus que está no céu não me perdoará.
Isso apenas nos permite entender que a liberação ou não de perdão diretamente a
minha relação com o Pai celestial. Mas passemos para a definição do termo e sua
aplicação no âmbito conjugal.
O que é perdão?
É
necessário, antes de partirmos mais profundamente para o assunto em questão,
fazermos algumas observações destacadas pelo escritor Jaime Kemp (2005) em seu
livro Perdão – o segredo espiritual para cura da alma. Em seu livro, Kemp toma
o caminho inverso a fim de ressaltar melhor o que estamos tratando aqui e, para
tanto, traz alguns pontos sobre o que não é o perdão. Vejamos:
Em primeiro lugar, perdão não é
esquecer – Engana-se
quem pensa que perdoar é apagar totalmente da memória o agravo que seu ofensor
lhe fez. Mas, na verdade, nós não somos aparelhos como o computador em que você
simplesmente formata e já não tem mais acesso aos arquivos que continham
naquela máquina. A mente humana, como algo de Deus, guarda coisas por um longo
espaço de tempo, logo, por mais que você queira, há eventos que jamais serão
apagados de sua memória.
Em segundo lugar, perdão não é
sentimento – Já
ouviu alguém dizendo que só vai perdoar quando sentir? Pois é, quando pensamos
assim, estamos comparando o perdão a um sentimento, o que de fato não é. Perdão
é atitude, é ação, é ordenança de Deus para todos os que andam em seus
caminhos.
Em terceiro lugar, perdão não é
voltar ao passado – Voltar
ao passado é reavivar um sentimento que talvez já estivesse morto. Toda vez que
você fizer isso, “estará reabrindo a ferida, impossibilitando a cura” (KEMP,
p.22). Além disso, ficar remoendo o passado causa males à própria saúde e, às
vezes, enquanto você sofre por algo que lhe fizeram há muito tempo, seu ofensor
não está sequer sofrendo por isso.
Em quarto lugar, o perdão não exige
mudanças por parte da outra pessoa antes de oferecermos perdão – Temos a tendência a só oferecermos
algo se obtivermos também algo em troca. Isso, porém, não pode ocorrer para
aquele que precisa perdoar. Afinal, não temos o poder de mudar as pessoas, só
há um que pode mudar qualquer ser humano, e este é Jesus. Além disso, “Quando
exigimos mudanças na vida de outra pessoa, nos colocamos no papel de juiz”
(KEMP, p.23).
Partindo,
então, das palavras enriquecedoras do autor supracitado, podemos compreender
melhor o significado do termo perdão e de como ele é importante dentro do
ambiente conjugal. O perdão é a atitude pela qual a parte ofendida toma a
decisão de eximir o ofensor de toda e qualquer culpa pela ofensa causada.
Noutras palavras é “tirar os olhos de si mesmo, da sua dor, de sua
autocomiseração e ver aquela pessoa em sua miséria e sentimento de culpa” (KEMP,
p. 26). Note que não estamos falando de uma tarefa fácil, mas de algo que acima
de tudo nos exige renúncias.
A
ausência dessa virtude no casamento acarreta sérias consequências na vida a
dois. Imagine conviver com uma pessoa que lhe olha diferente por causa de algo
que você fez no passado. Pense no fato de que pessoas magoadas têm como
primeiro passo se afastar daquele que lhe ofendeu e de todos àqueles que fazem
parte do convívio social dele. Geralmente, quando ocorre nos limites do
casamento, o cônjuge ofendido tende a conversar pouco, embora aparente estar tudo
bem, procura não expor mais suas opiniões como outrora, o sexo passa a ser
apenas uma obrigação, etc. Se formos observar, há muitos outros danos que podem
ser causados pela falta de perdão e também pela falta de reconhecimento do
ofensor dos seus erros.
Um
casamento assim, em que não há pedido de perdão e, ao mesmo tempo, um dos
cônjuges convive com uma mágoa no coração, tende a viver altos e baixos, pois
qualquer palavra do ofensor, por mais simples que seja, aprofundará a ferida na
alma do outro.
Como devemos exercer o perdão?
A
Bíblia Sagrada nos fornece algumas diretrizes para a execução do perdão não só
no âmbito conjugal como também nos demais em que estamos inseridos. Vejamos:
O perdão deve ser exercido com
liberalidade (Mt 18.21,22; Lc 17.3,4) – Nestes textos, Pedro indaga Jesus sobre a quantidade de
vezes que se devia perdoar a alguém que lhe ofendera e prosseguem perguntando a
Jesus se podia ser até sete vezes, ao passo que Cristo lhe responde, dizendo: “Não te digo que até sete, mas até setenta
vezes sete”. As palavras de Jesus, às vezes, assustam algumas pessoas por
essa quantidade sugerida por Ele. Todavia, não está em questão neste texto o
número, mas a liberalidade em perdoar. Somos limitados em muitos aspectos de
nossa vida e nem sempre nos propomos a dar uma terceira chance para as pessoas,
isto é a prova real do quanto falta em nós a liberalidade de Deus para perdoar.
A liberalidade no perdão é a
condição para recebermos o perdão de Deus (Mt 6.14,15) – Nós queremos receber o perdão de
Deus, mas não queremos perdoar aquele que nos ofendeu. Todavia, o perdão de
Deus para minha vida está condicionado à liberação de perdão para o meu
próximo. Jesus nos contou a parábola do credor incompassivo (Mt 18.23-32). Esse
devia muito ao rei, e não tendo como pagar seria vendido com sua família para
quitar a dívida. A Bíblia diz que ele, prostrando-se diante do rei,
reverenciava-o e pedia generosidade para que pudesse lhe pagar depois, ao passo
que o rei, movido de íntima compaixão, soltou-o e lhe perdoou a dívida. Pois
bem, esse mesmo homem que acabara de ser perdoado por dever dez mil talentos encontrou
um conservo que lhe devia cem dinheiros e lançando mão dele o impelia a pagar o
que lhe devia, de tal maneira que seu conservo lhe rogava da mesma maneira como
ele tinha feito para com o rei. Todavia, o registro bíblico nos mostra que sua
ação não foi a mesma do rei, o credor de forma incompassível mandou prendê-lo
até que liquidasse a dívida.
Veja
quanta falta de gratidão. Nós, às vezes, não liberamos perdão àqueles que nos
ofenderam por coisas pequenas, esquecendo-nos totalmente que Jesus padeceu na
cruz para que tivéssemos o perdão de Deus e que essa é a condição necessária
para que tenhamos sempre o perdão de Deus (Mt 6.12).
Quem não perdoa abre as portas de
seu coração para hospedar sentimentos ruins – É fácil perceber pessoas que por
falta de liberação de perdão acabam se afastando do convívio dos santos por
estar com o coração cheio de sentimentos ruis. A falta de perdão nos faz ver
tudo e todos como entraves à nossa convivência, isso quando não conduz a um
sentimento de amargura e a Bíblia diz que a amargura contamina aos outros (Hb
12.15).
Sua casa, um lugar de
perdão!
Ao mesmo tempo em que convivemos com
pessoas emocionais e também agressivas, como ressaltei no início deste texto,
convivemos com seres humanos insensíveis à vontade de Deus, que é claramente
demonstrada em sua palavra, para a boa convivência entre seus servos. Isso não
é nem um pouco diferente nos casamentos.
À medida que o tempo vai passando as
pessoas simplesmente se enrijecem para atitudes e valores que só tendem a
beneficiar nossa convivência. Dá o braço a torcer, no bom sentido da frase, não
significa fraqueza, pelo contrário, quem se propõe a pedir perdão ou liberar o
perdão sem que o outro tivesse tido a iniciativa de pedi-lo, revela a grandeza
de caráter e ao mesmo tempo o compromisso individual que se tem com Deus. Por
isso, permita-nos dá algumas orientações muitos importantes para que sua casa e
seu casamento se torne um lugar de perdão sempre:
Não
prolongue o pedido ou a liberação do perdão – Sou
totalmente contra o argumento de que o tempo é melhor remédio para estes casos.
Quando você prolonga o tempo para pedir ou liberar perdão para quem você
ofendeu ou foi ofendido, permite que o inimigo de nossas almas alimente dia
após dia o sentimento de rancor no seu coração. Lembra da irmã de quem falei no
texto sobre o valor das palavras no casamento? Ela alimentara uma mágoa por
quase dez anos e por causa disso, deixara de usufruir da graça de Deus em sua
vida. Se você é do tipo que passa dias sem falar com seu cônjuge até que um
belo dia decide voltar à boa convivência sem, pelo menos, praticar o perdão,
está na hora de rever seus conceitos baseando-os na palavra de Deus (Mt
6.14,15).
Quem
ama perdoa – Se você ama de verdade seu cônjuge
perdoará. Somente o amor nos permite olhar para a pessoa que nos ofendeu e
liberar perdão acreditando em sua mudança. O maior exemplo que temos sobre o
amor que perdoa é do próprio Deus. Mesmo conhecendo nossas transgressões e
nosso passado de culpa, nos reconciliou consigo mesmo (2Co 5.18,19; Jo 3.16),
provando assim o seu grande amor para conosco (Rm 5.8).
Não
dê lugar ao diabo (Ef 4.27) – Quando você não perdoa
nem pede perdão acaba por dá lugar ao diabo, pois tudo que ele deseja é que
nossas relações não sejam saudáveis e duradouras. A falta de perdão leva
consequentemente a outros males que vão, dia após dia, enfraquecendo a nossa
relação e conduzindo a raízes de amargura. Por isso, a melhor maneira de
quebrar este ciclo e não permitir que se complete é liberando perdão àqueles
que nos ofenderam.
Perdoe
mesmo sem sentir – Lembra de que descremos que o perdão não é
sentimento? Pois é, ratificamos isso aqui, lhe dizendo: Perdoe sempre. Quanto
ao que você sente, peça a Deus para tratar o seu emocional a fim de sarar toda
e qualquer ferida que porventura tenha sido aberta. Deus sabe como cuidar de
nós e eliminará de seu coração tudo aquilo que lhe causa dor. O que você não
pode é continuar alimentando sentimentos que só tendem a destruir sua alma.

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