quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Série Mudança de Comportamento 9/10


O VALOR DA TOLERÂNCIA NO CASAMENTO
Por: Auricléssio Lima



Nossa sociedade está envolta em diversas culturas. No meio dessa multiplicidade cultural, o uso do termo tolerância torna-se cada vez mais necessário. Aliás, nunca se ouviu tanto essa palavra como nos dias atuais.  Vemos a sua aplicação nos mais variados contextos sociais. Para termos uma ideia da difusão da palavra, no famoso site de pesquisas google são apresentados 49 milhões de resultados em português e 153 milhões na língua inglesa - tolerance -. A diversidade cultural em que estamos inseridos, abrangendo aspectos como pensamentos, opções religiosas, raças e outros mais exigem de todos nós, tolerância.
Em virtude dessa vultuosa diferença presente entre os povos, surgem as chamadas violações dos diretos, ou como muitos tem chamado, “intolerância”, há os que simplesmente não concordam com o fato do seu próximo possuir ideias opostas as suas. Essa falta e intolerância foi a causa de muitos desastres mundiais como, por exemplo, o provocado por Hitler, que causou a morte de mais de 6 milhões de judeus simplesmente por acreditar que eles eram uma raça inferior. 
As mídias sociais, atualmente, têm trabalhado o termo com mais veemência, principalmente se referindo a algumas classes minoritárias que exigem seus direitos. No entanto, não é nossa intenção aqui, abranger o termo aludindo aos conflitos sociais.
Nossa abordagem tem por objetivo, refletir sobre como as pessoas têm exigido mais tolerância do seu próximo, nosso foco será direcionado às relações conjugais, uma vez que esta também consiste na convivência de pessoas diferentes. Para tanto, é necessário entendermos mais detalhadamente o significado da palavra em questão.
O termo tolerância “vem do latim tolerare que significa "suportar" ou "aceitar", logo “uma pessoa tolerante normalmente aceita opiniões ou comportamentos diferentes daqueles estabelecidos pelo seu meio social”. Para complementar nosso entendimento o adjetivo “tolerante” é entendido assim: “tolerante adj. Que tolera. Dotado de tolerância. Indulgente. Que desculpa certas faltas ou erros. Que admite ou respeita opiniões contrárias às suas”. (FIGUEIREDO, 1913 p. 2007). Diante das definições supracitadas, alguns sentidos saltam da definição: suportar, aceitar opiniões diferentes das minhas.
Por essas explicações já podemos entender o porquê de tantos conflitos conjugais. O fato de sermos diferentes – e isso é inevitável, pois o casamento é a união de duas pessoas de sexo oposto e de famílias diferentes – gera, às vezes, opiniões e ideias opostas, bem como comportamentos diferentes. Recentemente, ouvi uma senhora se lamentar para outra sobre sua separação do marido, um dos motivos pelos quais havia se separado era o fato de ela ser muito comunicativa e, por isso, ter muitos conhecidos por onde passava. O fato de cumprimentar muitas pessoas incomodava o seu ex-marido, que questionava o fato de ela falar com todo mundo. Falta de tolerância nos faz ver as diferenças como obstáculos, ou mesmo, meios para dificultar a relação.
Paulo escrevendo aos irmãos em Colossos disse: “Suportando-vos e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como o Senhor vos perdoou, assim fazei vós também” (Cl 3.13). O texto indica que o próprio apóstolo tinha consciência da dificuldade em conviver com pessoas. No entanto, se não conseguimos manter uma relação baseada no respeito e aceitação daquilo que é avesso à nossa vontade, seremos pessoas intolerantes, o que acarretará sérios transtornos para as pessoas que estão em nossos laços de relacionamento.
Pessoas intolerantes provocam discussões com facilidades, e por razões insignificantes. A verdade não pode ser negada, alguém que se comporta assim, é uma fonte constante de intrigas. Tudo deve ser exclusivamente de acordo com a sua vontade, se os fatos não são como o esperado por ele (a), não está bom. Ratificando essa afirmativa, observe algumas situações presentes em nosso cotidiano, que evidenciam as marcas de alguém intolerante: Se não estou pronto às 19:00 horas, começam as reclamações; se esqueço minhas chaves, já é motivo de discussão; se peço para mudar de canal; se não estou tão disposta a manter relação sexual, se prefiro ficar a tarde em casa, se gostaria de um ouvir uma música, se gostaria de visitar amigos ou mesmo parentes, se discordo da sua opinião, tudo isso e mais um pouco é sempre contrário à vontade de quem é intolerante. A opção dele (a) sempre será contrária - às vezes, propositalmente. A intolerância também pode ser a ponte para a incompreensão, para ira, para o mau humor, tornando tudo um motivo para conflitos.
Não é fácil conviver com um cônjuge assim. Caso você tenha notado semelhanças em seu comportamento...cuidado! Seu relacionamento pode estar precisando de mudanças de comportamentos. A intolerância pode ser corrigida, o tratamento corretivo começa com ações que favoreçam a harmonia como um bom diálogo apresentando de maneira calma e pacífica sua insatisfação diante da situação. Os males provenientes de um cônjuge intolerante são capazes de chegar até mesmo a uma agressão física. Não aceite um comportamento assim!
Mas, como ser tolerante em meio a tantas situações que são contra a nossa vontade? Tenho que aceitar e ficar calado?  Como dizer que não estou confortável sem ser intolerante? O princípio básico para evitarmos a intolerância parte do reconhecimento das diferenças que há entre nós. Precisamos aceitar nossas desigualdades, e só sabendo disso é que partiremos para a ação chamada de negociação. Sim, isso mesmo! Há situações que precisamos negociar. Dentro do casamento, devemos ser flexíveis, ora respeitaremos a vontade do cônjuge, ora ele deve respeitar a nossa vontade. Nessa perspectiva, é importante ressaltar que não existe casamento conto de fadas, aquele em que você idealiza a pessoa perfeita e acaba por se sentir contrariado por, depois do casamento, não corresponder às suas expectativas. É aí que aprendemos que tem coisas no âmbito conjugal que simplesmente precisamos tolerar a fim de fazermos nosso cônjuge feliz, por mais que nos sintamos contrariados, uma vez ou outra.
 Mas, é bem verdade que há hábitos que precisam ser mudados e outros devem simplesmente ser tolerados. Como, então, identificá-los? Para exemplificar isso, recordo-me de um exemplo que ouvi de que um jovem havia se casado e, antes disso, sua mãe lhe preparava o café todas as manhãs, antes de ir para o trabalho. Quando casou, esperou que sua esposa fizesse o mesmo, no entanto, ela simplesmente não tinha o hábito de acordar tão cedo. Furioso ele procurou o seu pai para se aconselhar dizendo que daquele jeito não dava. Seu pai muito sábio lhe esclareceu que ele não havia se casado com a sua mãe e que a esposa não era obrigada a acordar de madrugada para lhe fazer o café. Esse é um bom exemplo de que há coisas no casamento que devem ser toleradas, afinal, meu cônjuge não é obrigado a se adaptar totalmente a minha maneira de ser.
A mudança só se faz necessária, quando os hábitos afetam diretamente a vida a dois, provocando males ao casamento. Ou seja, é preciso avaliar caso a caso, discernir as diferenças e negociar as vontades de um e de outro, levando sempre em consideração as divergências, sejam elas de pensamento, de atitudes ou culturais, procurando sempre o bem-estar do casal.
Permita-me agora descrever como essa tolerância se constrói dentro do âmbito conjugal.
Primeiro, tolerância é construída pela longanimidade. A longanimidade está diretamente relacionada à tolerância, ela pode ser entendida como a capacidade de “tolerar outras pessoas, mesmo quando for severamente tentado”, uma outra explicação ainda pode ser encontrada, no original, “hypomone”, pode ser literalmente traduzido como “resistir sobre uma carga pesada”, (ARRINGTON, STRONSTAD. 2012, p.375, 378). Está claro, que não há condições de sermos tolerantes sem esse fruto do Espírito Santo. No livro de Efésios Cap. 4 e versículo 2, Paulo nos instrui sobre a importância de termos longanimidade, associando como condição para um viver digno de cristão. Strong explica essa passagem aplicando o fato de “sermos pacientes quando somos atacados, ou quando outras pessoas tornam difíceis nossa vida” (STRONG, 2011, p.2291). Em suma, é necessária longanimidade para sermos tolerantes com as situações e pessoas em nossa volta. A longanimidade nos permite ser racionais diante daquilo que provoca certos desacertos em nosso casamento.
Segundo, a tolerância é construída pelo respeito às diferenças. Como já comentado no decorrer do estudo em questão. A intolerância surge pelo desrespeito as desigualdades, ou seja, quando eu não aceito as opções, as vontades, as escolhas do outro, quando não levo em consideração as explicações e justificativas, faço minhas próprias interpretações.  Ficou esclarecido que o comportamento acima é destrutivo e não agrega em nada à vida conjugal. Respeitar as diferenças existentes em uma relação é extremamente importante, afinal, são duas mentes, duas culturas, frutos de contextos familiares diferentes. É nesse cenário que o respeito deve prevalecer, para o bom equilíbrio da relação. 
Terceiro, a tolerância é construída pela descentralização. Você há de convir que pessoas que se acham o centro das atenções tendem a pensar que o mundo gira em torno de si, e na realidade, os fatos são bem diferentes. Um relacionamento deve ser pautado na descentralização em prol do bem comum, ou seja, aquilo que é proveitoso aos dois e não apenas a um. Se o cônjuge não aceita situações ou comportamentos simplesmente porque ele (a) é contrário à sua vontade, não está visando o bem de todos. A tolerância consiste em abrir os olhos para o bem de quem está ao nosso lado, não posso ser mesquinho ao ponto de exigir que tudo seja conforme o que eu quero ou ao meu bel prazer. Para ser tolerante é preciso descentralizar, ninguém é tão perfeito que tudo só funcione conforme suas regras. Até mesmo o Senhor, único perfeito, nos possibilita fazer nossas escolhas, sem impor sua vontade.
Quarto, a tolerância é construída pelo amor. Não há condições de respeitar e aceitar minha parceira (o) com todas as suas imperfeições se não houver amor. Nas palavras de Paulo, o amor é o elo para conseguir suportar uns aos outros, (Ef 4.2). Se preciso desfrutar de uma relação subordinada à tolerância, devo exercitar a prática do amor, de outra forma, como evidenciaria que amo se não sou capaz de tolerar as características de minha esposa (o) opostas as minhas? O apóstolo Paulo ainda ressalta que “o amor tudo suporta” (1Co 13.7). Não há dúvidas, se amo verdadeiramente, serei tolerante e paciente para aguardar as mudanças necessárias e suportar aquelas que simplesmente não mudarão.

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