O VALOR DA TOLERÂNCIA NO CASAMENTO
Por: Auricléssio Lima
Nossa sociedade está envolta em diversas culturas.
No meio dessa multiplicidade cultural, o uso do termo tolerância torna-se cada
vez mais necessário. Aliás, nunca se ouviu tanto essa palavra como nos dias
atuais. Vemos a sua aplicação nos mais
variados contextos sociais. Para termos uma ideia da difusão da palavra, no
famoso site de pesquisas google são
apresentados 49 milhões de resultados em português e 153 milhões na língua
inglesa - tolerance -. A diversidade cultural
em que estamos inseridos, abrangendo aspectos como pensamentos, opções
religiosas, raças e outros mais exigem de todos nós, tolerância.
Em virtude dessa vultuosa diferença
presente entre os povos, surgem as chamadas violações dos diretos, ou como
muitos tem chamado, “intolerância”, há os que simplesmente não concordam com o
fato do seu próximo possuir ideias opostas as suas. Essa falta e intolerância
foi a causa de muitos desastres mundiais como, por exemplo, o provocado por
Hitler, que causou a morte de mais de 6 milhões de judeus simplesmente por
acreditar que eles eram uma raça inferior.
As
mídias sociais, atualmente, têm trabalhado o termo com mais veemência,
principalmente se referindo a algumas classes minoritárias que exigem seus
direitos. No entanto, não é nossa intenção aqui, abranger o termo aludindo aos
conflitos sociais.
Nossa
abordagem tem por objetivo, refletir sobre como as pessoas têm exigido mais
tolerância do seu próximo, nosso foco será direcionado às relações conjugais,
uma vez que esta também consiste na convivência de pessoas diferentes. Para
tanto, é necessário entendermos mais detalhadamente o significado da palavra em
questão.
O
termo tolerância “vem do latim tolerare que significa "suportar"
ou "aceitar", logo
“uma pessoa tolerante normalmente aceita opiniões ou comportamentos
diferentes daqueles estabelecidos pelo seu meio social”. Para complementar
nosso entendimento o adjetivo “tolerante” é entendido assim: “tolerante adj.
Que tolera. Dotado de tolerância. Indulgente. Que desculpa certas faltas ou
erros. Que admite ou respeita opiniões contrárias às suas”. (FIGUEIREDO, 1913
p. 2007). Diante das definições supracitadas, alguns sentidos saltam da
definição: suportar, aceitar opiniões diferentes das minhas.
Por
essas explicações já podemos entender o porquê de tantos conflitos conjugais. O
fato de sermos diferentes – e isso é inevitável, pois o casamento é a união de
duas pessoas de sexo oposto e de famílias diferentes – gera, às vezes, opiniões
e ideias opostas, bem como comportamentos diferentes. Recentemente, ouvi uma
senhora se lamentar para outra sobre sua separação do marido, um dos motivos
pelos quais havia se separado era o fato de ela ser muito comunicativa e, por
isso, ter muitos conhecidos por onde passava. O fato de cumprimentar muitas
pessoas incomodava o seu ex-marido, que questionava o fato de ela falar com
todo mundo. Falta de tolerância nos faz ver as diferenças como obstáculos, ou
mesmo, meios para dificultar a relação.
Paulo
escrevendo aos irmãos em Colossos disse: “Suportando-vos e perdoando-vos uns aos outros, se alguém
tiver queixa contra outro; assim como o Senhor vos perdoou, assim fazei vós
também” (Cl 3.13). O texto indica que o próprio apóstolo tinha
consciência da dificuldade em conviver com pessoas. No entanto, se não
conseguimos manter uma relação baseada no respeito e aceitação daquilo que é
avesso à nossa vontade, seremos pessoas intolerantes, o que acarretará sérios
transtornos para as pessoas que estão em nossos laços de relacionamento.
Pessoas intolerantes provocam discussões
com facilidades, e por razões insignificantes. A verdade não pode ser negada, alguém
que se comporta assim, é uma fonte constante de intrigas. Tudo deve ser exclusivamente
de acordo com a sua vontade, se os fatos não são como o esperado por ele (a),
não está bom. Ratificando essa afirmativa, observe algumas situações presentes
em nosso cotidiano, que evidenciam as marcas de alguém intolerante: Se não
estou pronto às 19:00 horas, começam as reclamações; se esqueço minhas chaves,
já é motivo de discussão; se peço para mudar de canal; se não estou tão
disposta a manter relação sexual, se prefiro ficar a tarde em casa, se gostaria
de um ouvir uma música, se gostaria de visitar amigos ou mesmo parentes, se
discordo da sua opinião, tudo isso e mais um pouco é sempre contrário à vontade
de quem é intolerante. A opção dele (a) sempre será contrária - às vezes,
propositalmente. A intolerância também pode ser a ponte para a incompreensão, para
ira, para o mau humor, tornando tudo um motivo para conflitos.
Não é fácil conviver com um cônjuge assim.
Caso você tenha notado semelhanças em seu comportamento...cuidado! Seu relacionamento
pode estar precisando de mudanças de comportamentos. A intolerância pode ser
corrigida, o tratamento corretivo começa com ações que favoreçam a harmonia
como um bom diálogo apresentando de maneira calma e pacífica sua insatisfação
diante da situação. Os males provenientes de um cônjuge intolerante são capazes
de chegar até mesmo a uma agressão física. Não aceite um comportamento assim!
Mas, como ser tolerante em meio a tantas
situações que são contra a nossa vontade? Tenho que aceitar e ficar calado? Como dizer que não estou confortável sem ser
intolerante? O princípio básico para evitarmos a intolerância parte do
reconhecimento das diferenças que há entre nós. Precisamos aceitar nossas
desigualdades, e só sabendo disso é que partiremos para a ação chamada de
negociação. Sim, isso mesmo! Há situações que precisamos negociar. Dentro do
casamento, devemos ser flexíveis, ora respeitaremos a vontade do cônjuge, ora
ele deve respeitar a nossa vontade. Nessa perspectiva, é importante ressaltar
que não existe casamento conto de fadas, aquele em que você idealiza a pessoa
perfeita e acaba por se sentir contrariado por, depois do casamento, não
corresponder às suas expectativas. É aí que aprendemos que tem coisas no âmbito
conjugal que simplesmente precisamos tolerar a fim de fazermos nosso cônjuge
feliz, por mais que nos sintamos contrariados, uma vez ou outra.
Mas, é bem verdade que há hábitos que precisam
ser mudados e outros devem simplesmente ser tolerados. Como, então, identificá-los?
Para exemplificar isso, recordo-me de um exemplo que ouvi de que um jovem havia
se casado e, antes disso, sua mãe lhe preparava o café todas as manhãs, antes de
ir para o trabalho. Quando casou, esperou que sua esposa fizesse o mesmo, no
entanto, ela simplesmente não tinha o hábito de acordar tão cedo. Furioso ele procurou
o seu pai para se aconselhar dizendo que daquele jeito não dava. Seu pai muito
sábio lhe esclareceu que ele não havia se casado com a sua mãe e que a esposa
não era obrigada a acordar de madrugada para lhe fazer o café. Esse é um bom
exemplo de que há coisas no casamento que devem ser toleradas, afinal, meu
cônjuge não é obrigado a se adaptar totalmente a minha maneira de ser.
A mudança só se faz necessária, quando os
hábitos afetam diretamente a vida a dois, provocando males ao casamento. Ou
seja, é preciso avaliar caso a caso, discernir as diferenças e negociar as
vontades de um e de outro, levando sempre em consideração as divergências, sejam
elas de pensamento, de atitudes ou culturais, procurando sempre o bem-estar do
casal.
Permita-me agora descrever como essa
tolerância se constrói dentro do âmbito conjugal.
Primeiro,
tolerância é construída pela longanimidade. A longanimidade
está diretamente relacionada à tolerância, ela pode ser entendida como a capacidade
de “tolerar outras pessoas, mesmo quando
for severamente tentado”, uma outra explicação ainda pode ser encontrada,
no original, “hypomone”, pode ser
literalmente traduzido como “resistir
sobre uma carga pesada”, (ARRINGTON, STRONSTAD. 2012, p.375, 378). Está
claro, que não há condições de sermos tolerantes sem esse fruto do Espírito
Santo. No livro de Efésios Cap. 4 e versículo 2, Paulo nos instrui sobre a
importância de termos longanimidade, associando como condição para um viver
digno de cristão. Strong explica essa passagem aplicando o fato de “sermos
pacientes quando somos atacados, ou quando outras pessoas tornam difíceis nossa
vida” (STRONG, 2011, p.2291). Em suma, é necessária longanimidade para sermos
tolerantes com as situações e pessoas em nossa volta. A longanimidade nos
permite ser racionais diante daquilo que provoca certos desacertos em nosso
casamento.
Segundo,
a tolerância é construída pelo respeito às diferenças. Como
já comentado no decorrer do estudo em questão. A intolerância surge pelo
desrespeito as desigualdades, ou seja, quando eu não aceito as opções, as
vontades, as escolhas do outro, quando não levo em consideração as explicações
e justificativas, faço minhas próprias interpretações. Ficou esclarecido que o comportamento acima é
destrutivo e não agrega em nada à vida conjugal. Respeitar as diferenças
existentes em uma relação é extremamente importante, afinal, são duas mentes,
duas culturas, frutos de contextos familiares diferentes. É nesse cenário que o
respeito deve prevalecer, para o bom equilíbrio da relação.
Terceiro,
a tolerância é construída pela descentralização. Você
há de convir que pessoas que se acham o centro das atenções tendem a pensar que
o mundo gira em torno de si, e na realidade, os fatos são bem diferentes. Um
relacionamento deve ser pautado na descentralização em prol do bem comum, ou
seja, aquilo que é proveitoso aos dois e não apenas a um. Se o cônjuge não
aceita situações ou comportamentos simplesmente porque ele (a) é contrário à
sua vontade, não está visando o bem de todos. A tolerância consiste em abrir os
olhos para o bem de quem está ao nosso lado, não posso ser mesquinho ao ponto de
exigir que tudo seja conforme o que eu quero ou ao meu bel prazer. Para ser
tolerante é preciso descentralizar, ninguém é tão perfeito que tudo só funcione
conforme suas regras. Até mesmo o Senhor, único perfeito, nos possibilita fazer
nossas escolhas, sem impor sua vontade.
Quarto,
a tolerância é construída pelo amor. Não há condições de
respeitar e aceitar minha parceira (o) com todas as suas imperfeições se não
houver amor. Nas palavras de Paulo, o amor é o elo para conseguir suportar uns
aos outros, (Ef 4.2). Se preciso desfrutar de uma relação subordinada à tolerância,
devo exercitar a prática do amor, de outra forma, como evidenciaria que amo se
não sou capaz de tolerar as características de minha esposa (o) opostas as
minhas? O apóstolo Paulo ainda
ressalta que “o amor tudo suporta” (1Co
13.7). Não há dúvidas, se amo verdadeiramente, serei tolerante e paciente para
aguardar as mudanças necessárias e suportar aquelas que simplesmente não
mudarão.

Excelente comentário, e de grande ajuda para os dias atuais.
ResponderEliminarObrigado. ...
EliminarOlá. ..leiam. ..comentem. ..
ResponderEliminarApreciem a leitura. ..
Espero que esse artigo seja proveitoso para o crescimento da relação. ..
Muito bom
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