sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Série Mudança de Comportamento


O VALOR DA CONFIANÇA NO CASAMENTO
*Por: Auricléssio Lima 


“Logo após a revelação de Joanna, as emoções mais intensas de Raphael foram a dor e o desapontamento. Chorou por trinta minutos seguidos, tão logo ela terminou de revelar a traição…Logo depois, seguiu-se a depressão, aquele senso de desespero, a sensação de que nada poderia ser feito para reparar o dano…” (CHAPMAN, 2009).
Esse foi o sentimento vivido por alguém que perdera a confiança em quem mais amava. Não se trata de um caso isolado, milhares de cônjuges têm se deparado com esta infeliz revelação, que destrói as bases do matrimônio, sendo uma delas, a confiança.
A confiança está sustentada por alguns pilares, entre eles está a fidelidade, que por sua vez, envolve lealdade. Salomão se expressou muito bem ao retratar o sentimento daquele que antes confiava em alguém que agora se revelou desleal: “Como dente quebrado e pé deslocado, assim é a confiança no desleal, no tempo da angústia”. (Pv 25.19). Isso nos mostra que confiar nas pessoas já é algo, por si só, muito melindroso, imagine depositar a sua confiança em alguém totalmente desleal.
Por isso, a confiança é, sem dúvida, um dos valores mais importantes em uma relação, pois sem essa, como se amará? Como manter a comunicação se não há como saber se as palavras são verdadeiras? Como compartilhar sua vida com alguém que não lhe inspira confiança?
Por ser uma palavra tão pronunciada e cultivada no contexto social, ela se torna fácil de ser encontrada nos dicionários. Segundo Aurélio, ela representa “crédito, fé, boa fama”, (p. 174). Para Figueiredo ela pode ser entendida como “esperança firme. Segurança íntima com o que se procede”. Ou seja, a confiança envolve intimidade em quem tem uma conduta livre de falsidade. Por sua vez, confiança é a forma substantivada do verbo confiar, e quem confia se “entrega com segurança”, (FIGUEIREDO, p. 524). Segundo o estudo etimológico, a palavra confiança “vem do Latim confidentia, “confiança”, de confidere, “acreditar plenamente, com firmeza”, formada por COM, intensificativo, mais FIDERE, “acreditar, crer”, que deriva de FIDES, “fé”.
Ouso afirmar que, a confiança é um dos elos principais que une qualquer tipo relacionamento, inclusive o nosso com Deus. Salomão nos instrui a confiar no Senhor para que nossas obras e os nossos pensamentos sejam estabelecidos (Pv 16.3). Entretanto, o valor da confiança tem sido deteriorado por vários fatores, vamos entender alguns deles.
Sem dúvida, os casos de infidelidade são os campeões. Acredito que você já ouviu falar que após uma traição, é extremamente difícil voltar a confiar plenamente no parceiro (a). Minha opinião em relação a essa afirmativa é favorável, entretanto, por mais longo que seja a restauração da confiança, ela ainda é possível. Infelizmente, o índice de infidelidade entre os brasileiros é alarmante, o que demonstra uma cultura aquém do esperado. Observe a pesquisa extraída do site O globo, divulgada em novembro de 2011:

“Quem olha para os casos de infidelidade declarados pelos brasileiros corre o risco de perder o sono. Entre os homens, o percentual daqueles que dizem já ter traído pelo menos uma vez na vida chega a 70,6%. Entre as mulheres, o número é 56,4%... O levantamento mostra que apenas 36,3% dos brasileiros nunca traíram um parceiro. Só a Colômbia consegue ter um número ainda menor de fiéis convictos: 33,6%”.

Por esses dados, podemos inferir a realidade caótica dos relacionamentos. Com essa situação, a probabilidade é que mais de 70% dos casais vivem na sombra da desconfiança no cônjuge. No início deste texto, apresentamos um relato sobre os sentimentos de uma pessoa traída. É fato inquestionável como essa atitude destrói bases confiáveis construídas ao longo de toda uma vida. Mas, por outro lado, não deixe de acreditar, que o perdão tem um enorme poder restaurador. Há casamentos que mesmo sofrendo um abalo na confiança por parte de um dos cônjuges, conseguiram estabelecer e reconquistar a confiança um do outro.
Um outro fator que tem gerado a quebra da confiança está voltado à influência social. O que se prega nos grupos sociais é exatamente a mentalidade da desconfiança com o parceiro, o que nos ratifica essa informação são expressões como: “não confie demais”, ou “quem confia demais quebra a cara”, alguns ainda utilizam de forma errônea o texto bíblico de Jremias 17.5 “Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!”,  no entanto, observe que esse texto está se referindo ao sentido de nos apoiar na força humana em detrimento da força de Deus, não podemos entender essa passagem bíblica como orientação a não confiarmos nas pessoas.
Há ainda um outro fator que tem contribuído para a desconfiança nos relacionamentos, que são os aparatos midiáticos. Esses, por sua vez, têm afastado os casais, mesmo convivendo na mesma casa. Há casos de cônjuges que não se conhecem como deveriam por não desfrutarem de uma comunicação externa aos veículos de mídias sociais. Por passarem tanto tempo envolvidos com sites e aplicativos como facebook, instagram, twitter, whatsApp entre outros, acabam por não desfrutarem de conversas reais e sem o diálogo real – aquele cara a cara - o relacionamento fica vulnerável à desconfiança. Como prova disso, responda a seguinte indagação: você confiaria em alguém que não conhece? Absolutamente, não!
Esses são apenas os meios mais comuns que têm provocado a desconfiança entre os casais de nosso tempo. Se seu relacionamento tem se assemelhado com alguns dos critérios mencionados, tenha uma ação efetiva o quanto antes, caso contrário, seu casamento poderá chegar à  condição insuportável. Não há como esconder os efeitos devastadores provindos de uma relação pautada  na desconfiança, uma vez que são várias as implicações existentes, tais como: a frieza emocional, discussões, insatisfações, ausência de confidencialidades, e até mesmo uma vida sexual raquítica, pois o sexo se torna mais uma obrigação do que prazer.  Verdade seja dita: quem vive em um ambiente assim, não conseguirá ser feliz, pois a amargura na alma será constante, devido aos vários conflitos e discussões, que abrirá uma ferida no seio conjugal causando dores e sofrimentos pela decepção e frustração.
É primordial termos alguém no qual podemos confiar, seja qual for o momento, aliás, esse alguém precisa ser a pessoa que escolhemos compartilhar nossa vida. Diante disso, vamos entender alguns fatores essenciais que geram e mantém uma confiança firme e verdadeira no relacionamento.
Em primeiro lugar, a confiança fundamenta-se no caráter. Como já identificamos, o termo confiança está relacionado a depositar algo, creditar em alguém nossa intimidade, segredos, e até mesmo nossa vida. No entanto, torna-se inviável fazermos depósitos de nossos sentimentos em um banco do qual não conhecemos. Imagine comigo: é sábio creditarmos bens de altos valores em um banco que possui uma má reputação? Certamente não! Se pretendemos iniciar uma relação em qualquer instituição financeira, a primeira coisa a ser feita é a consulta do histórico do banco, se este tem uma boa reputação e se tem se sobressaído positivamente no mercado financeiro. Caso sim, estaremos mais confiáveis em guardar nossos bens em um determinado banco. Assim também, é a nossa vida pessoal. Como depositar nossos sentimentos em alguém com uma má reputação? O caráter de alguém é uma das bases a serem avaliadas para atribuirmos confiança. Veja a abrangência do termo caráter de acordo com Renovato (2017, p. 05): “a característica responsável pela nossa ação, reação e expressão máxima da personalidade. A maneira de cada pessoa agir e expressar-se...tem a ver com os princípios, valores e ética de cada um”.
Diante dessa definição, ratificamos que é impossível atribuir confiança em alguém que não nos transmite tais virtudes provindas de um caráter ilibado. O caráter é a base inicial para creditarmos confiança. Se o nosso cônjuge age de maneira correta, possui princípios voltados a honestidade, é verdadeiro consigo mesmo e com o próximo, tem suas ações aprovadas pela sociedade e por Deus, esse certamente é digno de nossa confiança.
Em segundo lugar, a confiança está sustentada na verdade. Embora, o ato de ser verdadeiro está relacionado com o nosso caráter, quero destacar esse ponto, pois julgo ser extremante relevante para o fortalecimento do que estamos tratando aqui. Quando afirmamos que a confiança está sustentada pela verdade, gostaria que você associasse essa virtude a uma rocha. Assim como Cristo afirmou que uma casa só é firme se estiver construída sobre uma rocha – que neste caso é entendida como a palavra de Deus - também a confiança entre os cônjuges só prevalece se estiver fundamenta sobre esta palavra. E Jesus Cristo disse que a sua palavra é a verdade (Jo 17.17). Afinal, somente alicerçados na palavra de Deus podemos garantir a sobrevivência de nossa casa em meio a qualquer adversidade, (Mt 7.21, 24-27). Logo, a verdade fortifica e dá credibilidade para a confiança no relacionamento.
Desta forma, nos sentiremos confiáveis ao andar sobre um solo que temos a certeza que não vai sucumbir. A confiança na relação tem o mesmo princípio, se ambos os cônjuges forem verdadeiros, estarão colocando a verdade como fundamento de sua relação. Com isso, o nível de confiabilidade é o mesmo que andar sobre um solo rochoso e ter a certeza que este não vai desmoronar.
O ato de ser verdadeiro um com o outro, resulta também em uma barreira contra a difamação. Quando a verdade é mantida, a palavra do cônjuge será digna de confiança. Há casais que acreditam mais em terceiros do que no próprio parceiro (a). Muitos, ao ouvirem boatos escandalosos já abordam com hostilidade seu companheiro (a). Isso, acontece na maioria dos casos quando o cônjuge já tem faltado com a verdade. Porém, se ambos manterem-se fiéis um ao outro no relacionamento as mentiras não terão espaço.
Por outro lado, se o relacionamento for pautado em mentiras, não subsistirá. E assemelho um relacionamento deste tipo, como andar sobre uma fina camada de gelo, a qualquer momento o solo pode afundar. Conviver em um relacionamento cheio de mentiras, é andar com a dúvida ao seu lado. E como confiar em um solo duvidoso? Saiba que a verdade nos dá a certeza de que podemos confiar na pessoa que escolhemos para passar todos os dias de nossa vida. Por isso, seja verdadeiro, essa é e sempre será a melhor opção.
Em terceiro lugar, a confiança está fincada no comprometimento. Dentre as palavras que expressam valores de uma pessoa, gosto tanto da pronúcia quanto do significado desta. O Comprometimento pode ser visto pelo nível de envolvimento de alguém em determinada situação. O verbo desta palavra é “comprometer”, ou seja, “obrigar por compromisso feito; implicar; envolver”, (AURÉLIO, p.169). Veja que alguém que possui essa virtude e está envolvido é participante ativo dos ocorridos. Não sei se você conhece alguém que é comprometido com seus objetivos e está envolvido com sua família, participando ativamente da vida de seus filhos e sua esposa. Tudo o que ele (a) se propõe a fazer faz com desvelo, porque há o envolvimento completo com o compromisso assumido.
Bem, já deu para perceber que se houver, de ambos os cônjuges, comprometimento em um relacionamento, seu casamento será marcado por constante crescimento. Como é bom quando o casal está comprometido com a felicidade, com os objetivos pessoais de cada um. Essa virtude, possibilita que além de marido e mulher, o casal também estabeleça relações de verdadeira amizade.
Em quarto lugar, a confiança está envolta pela lealdade.  A lealdade é imprescindível para que se estabeleça a confiança. Ser leal é agir “Conforme com a lei, digno. Honesto. Sincero. Fiel: esposa leal”, (FIGUEIREDO, p.1200). Observe, que a lealdade envolve agir em conformidade com um compromisso feito. Quando quebramos o compromisso de ser fiel, estamos sendo desleais tanto ao nosso cônjuge quanto a nós mesmos. Ser desleal aponta para um perfil de alguém fraco o suficiente para não manter seus compromissos.
Quando somos leais ao nosso cônjuge estamos promovendo um nível de confiança altíssimo e como prova disso lhe pergunto: você confia em Deus? Acredito que sua resposta é absolutamente sim! Mas, por que confiamos em Deus? Por que temos tanta confiança nEle? A resposta é bem simples, logo Deus se mantém fiel ao compromisso que Ele fez para conosco, independente de nossas falhas, Ele permanece fiel. É o que diz Paulo na epístola a Timóteo: “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.(II Tm 2.11-13).
Por fim, tenhamos certeza de uma coisa: nossa lealdade ao nosso conjugue é proporcional ao nível de confiança. Se desejamos ser dignos de confiança sejamos leais em quaisquer situações.


*Auricléssio Lima é presbítero na Assembleia de Deus em Canaã dos Carajás. Articulista, pregador e escritor. Bacharel em teologia e licenciando em Pedagogia pela UEPA.

2 comentários:

  1. A paz
    Espero contribuir para o enriquecimento da relação conjugal de cada leitor. .Abraços. ..

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  2. Muito obrigado a todos que estão visitando o nosso blog. Espero que sejam grandemente edificados pelos textos aqui publicados.

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